Músicas sobre festas e lazer

Há músicas que procuram evocar as ocasiões festivas e recreativas, algumas caracterizando o contexto em que têm lugar as festas, a sua motivação, participantes e iguarias gastronómicas. Adotando um tom evocativo, por vezes nostálgico, estas músicas remetem para uma distância temporal entre a realização das festas e o momento em que a música é cantada. Em Há sempre festas e romarias oferece-se um completo catálogo dos elementos distintivos de Aveiro, todos em comunhão durante as genuínas ocasiões festivas: a ria, o bairro da Beira-Mar, as tricanas e os ovos moles.

Há sempre festas e romarias

Reportório do Grupo Etnográfico e Cénico das Barrocas

Aveiro e sua ria a brilhar
Com seus encantos, raro de ver
Com seus barquinhos sempre a passar
E montes de sal aparecer.

Refrão:
Há sempre festas e romarias
Arma-se um baile em qualquer lugar
Estalam foguetes às bonitas raparigas           (BIS)
Sendo alegre as cantigas
É assim à Beira-Mar.

Até o sol brilha com mais cor
Na graça alegre das tricaninhas
Todos conhecem o belo sabor
Dos bons ovos moles em barriquinhas. 

No meio da multiplicidade de festas e romarias do concelho, há algumas que se destacam e as suas dinâmicas transformam-se em poema de música popular. Nas festas dá-se uma mitigação das normas sociais que impõem fronteiras entre homens e mulheres, participando ambos em rituais de celebração e, por vezes, de sedução. Estes rituais não alienam, no entanto, os seus participantes que se mantêm conscientes da importância, beleza e singularidade das festas que se realizam no concelho de Aveiro e nas localidades vizinhas (a Festa da Barra não tem lugar no território aveirense, mas representava uma ocasião de confraternização para a sua população). 

Nossa Senhora das Areias

Reportório do Grupo Etnográfico e Cénico das Barrocas

Ele: Maria, vamos à festa?
À Senhora das Areias.               (BIS)

Ela:
Vai-te embora, Zé.
Eu não vou contigo,
Olarilolé.                                  (BIS)
E não vais comigo.

Ele:
Maria, vamos à praia?
À praia de São Jacinto.            (BIS)

Ela:
Vai-te embora, Zé.
Não sejas maroto
Vai com a maré                        (BIS)
Já que és maroto.

Refrão:
Em São Jacinto,
À padroeira,
Vamos rezar,
Cantar e bailar
À nossa maneira.
Haja alegria
Que a festa é nossa
Vamos alegres
A remar contentes
Na nossa bateira.

Ele:
Maria, vamos de barco?
Vamos ver a nossa ria.             (BIS)

Ela:
Vai-te embora, Zé.
Já disse que não.
Já não és o Zé                          (BIS)
Do meu coração.

Ele:
Maria, já que assim és
Eu vou à festa sozinho.            (BIS)

Ela:
Vai-te embora, Zé.
Rema bem ligeiro
Porque a festa é                        (BIS)
Do nosso Aveiro.

Festa dos Ramos

Reportório do Grupo Etnográfico e Cénico das Barrocas

Coro:
Ramos!
Não há festa como esta
Nem outra qualquer a vence.
Ramos!
Festa da terra que encerra
A tradição aveirense.
Ramos!
Flores queridas, cores garridas
Como as cores de um sol de verão.
Ramos!
Nas promessas não esqueças,
Nas promessas não esqueças
Esta linda tradição.

Parceiro:
Ai! Parceira, parceirinha!
Até pareço mais novo.

Parceira:
Não que esta é a melhor festinha
Que festeja o nosso povo.

Parceiro:
Este dia é todo nosso,
É de beijos e abraços.

Parceira:
Beijos não, isso eu não posso…
Mas se quer dou-lhe o meu braço.

Parceiro e parceira:
Ai! Parceira!
Ai! Parceiro!
Quero crer que no Natal
Como esta festa d’Aveiro
Não há outra em Portugal.

Coro:
Ramos!
Pelas ruas da cidade
Com um canto triunfal.
Ramos!
Vai aqui toda a verdade
Dos festejos de Natal.
Ramos!
Pelo ar a estalejar
O foguetório assobia.
Ramos!
Não há festa como esta,
Não há festa como esta
Que tenha mais alegria.

Parceira:
Ajoelhe aqui, parceiro.
Dê-me cá o seu raminho.

Parceiro:
Mas deixe dar-lhe primeiro
O tradicional beijinho.

Parceira:
Não o quero ver chorar,
Não se faça assim tão mole.

Parceiro:
Eu logo torno avivar.
Com um copázio de briol.

Parceiro e Parceira:
Ai! Parceira!
Ai! Parceiro!
Quero crer que no Natal
Como esta festa d’Aveiro
Não há outra em Portugal.

Festa da Barra

Reportório do Grupo Etnográfico e Cénico das Barrocas

I
Eu fui à festa da Barra           (BIS)
Eu muito por lá gozei            (BIS)
Corri toda a praia inteira       (BIS)
Eu nunca te encontrei. 
Ai!…
Eu nunca te encontrei.

Refrão:
Lá-Lá-Lá-Lá-Lá-Lá-Lá-Lá…

II
Disseste que não me encontraste
Isso não pode ser.                              (BIS)
Pois… 
Dancei, cantei e bailei
Até a noite aparecer.                         (BIS)

III
Eu fui à festa da Barra           (BIS)
Que é uma festa popular.       (BIS)
Desloca gente de Aveiro        (BIS)
P’ra lá confraternizar.            (BIS)

IV
Desloca gente de Aveiro
P’ra lá confraternizar.                       (BIS)
Pois… 
Se eu fui à festa da Barra
Foi p’ra te ver e reinar.                      (BIS) 

Algumas das canções mais típicas nascem de momentos de partilha de uma experiência coletiva. Pensemos nas canções que peregrinos recuperam aquando de uma romaria ou nas cantigas entoadas em danças de roda. São estes os casos das músicas P’ra Romaria e Viva a alegria, respetivamente. Na primeira é possível perceber o contexto em que é realizada a romaria e os sentimentos dos seus participantes, enquanto na segunda o próprio poema fornece uma ideia clara da dinâmica da dança.  

P'ra Romaria

Reportório do Grupo Etnográfico e Cénico das Barrocas

I
Nossas canções entoando
E alegres caminhando
Em devaneio de amores.
Vamos fazer penitência
Pedindo santa clemência
Nossa Senhora das Dores. 

II
Eia avante, pois partimos
Em transbundante alegria
Levando ofertas e mimos
Nossa romagem seguimos
Enquanto não rompe o dia.

III
Antes que apareça o sol
Num deslumbrante arrebol
Por sobre a terra a brilhar.
Para a bela romaria
Todos juntos à porfia
Iremos cantar, dançar.

IV
Jornadeamos a pé
Com fervor e muita fé
Promessas vamos cumprir.
Com almas e corações
Em brandas palpitações
A cantar e a sorrir.

 

Viva a alegria

Reportório do Grupo Etnográfico e Cénico das Barrocas

Mulheres:
Siga a roda
Siga a roda acelerada.
Ai! Com fervor e sem fadiga
Passa à frente camarada
Não descores rapariga.

Passa à frente,
Haja alegria
Todo o rancho, cada par
Pelos gestos,
Pelos gestos e cantoria
Há-de dar-se que falar.

Homens:
Siga a roda acelerada
Com fervor e sem fadiga
Passa à frente, passa à frente
Camarada
Não descores rapariga.

 

Passa à frente,
Passa à frente haja alegria
Todo o rancho, cada par
Pelos gestos e cantoria
Há-de dar-se que falar.

Refrão:
Canta o soldado na guerra.
Canta o nauta sobre o mar.
O pastor canta na serra.
Nós vamos também cantar.
Canta toda a natureza:
As aves, seiva, a folhagem.
Canta o melro na ravessa (BIS)
Ao sabor da branda aragem.

Estas dinâmicas repetem-se numa canção ilustrativa de uma das ocasiões recreativas mais importantes no calendário do bairro da Beira-Mar: a botadela, quando o trabalho e o lazer se fundem para formar um momento de colaboração e partilha.

Botadela

Reportório do Grupo Etnográfico e Cénico das Barrocas

I
Sou salineiro
Moro à beira do mar.              (BIS)

Eu vejo o sol na eira
Sempre a brilhar.                    (BIS)

Refrão:
Chega-te a mim
Casta donzela                         (BIS)
Vamos todos a correr 
Para a nossa botadela.            (BIS)

O nosso sal
A nossa ria
O nosso pão
De cada dia
Oh! Ih! Oh! Ai!
A rer o sal
Nossas salinas não têm rival.

II
Deus me dê jeito
Para eu poder cantar                (BIS)

E com as moças de Aveiro
Eu vou dançar.                         (BIS)